Quarta-feira, Dezembro 09, 2009

A (i)moralidade da violência política



Os pontos de interseção entre moral e política me fascinam. Apesar de tudo o que o senso comum diz sobre o suposto pragmatismo, para não dizer amoralismo, necessário ao bom político -- aquela dose de flexibilidade que dá a ele a capacidade de "trocar" parte de seus princípios e desejos por uma eficiência que resultará no bem comum --, existem questões que exigem uma reflexão e uma tomada de posição que são sobretudo morais. Uma delas é a questão da violência: quando (e se) ela seria aceitável?


Já falei disso antes aqui. Mas gostaria de compartilhar um fato curioso que me trouxe o assunto à mente outra vez. Neste semestre eu fiz uma disciplina no IFCS, Instituto de Filosofia e Ciência Sociais da UFRJ, que tratava da questão da subjetividade e da memória nos estudos históricos. A professora, simpática ainda que um pouco desorganizada, especializou-se em memórias ligadas às ditaduras militares do Brasil e da Argentina. Em uma de nossas últimas aulas, quando se discutiu o filme Hércules 56, de Sílvio Da-Rin, levantou-se a questão da legitimidade ou não da luta armada, observando-se como, dos ex-militantes que depõem no filme, falava-se da (in)eficiência ou da (in)conveniência dessa prática como forma de luta política, sem se tocar em um ponto muito mais elementar e que há pouco tempo foi objeto de intensa discussão na Argentina: a moralidade do ato de matar.

Esse silêncio é engraçado, para não dizer melancólico, pois dá a entender que esse era um ponto pacífico entre os guerrilheiros e aspirantes a guerrilheiros da época. Mas, vendo as origens de muitos deles, que eram estudantes universitários de classe média, eu duvido que seja algo tão simples assim. Mas por que então não se fala no assunto? Não sei. O que posso dizer, porém, é olhar para os nossos hermanos argentinos, que tiveram de enfrentar esse questionamento moral numa polêmica iniciada com o filósofo Oscar del Barco. Em resposta a uma entrevista de um ex-membro de um grupo guerrilheiro dos anos 1960, que falava da execução de dois jovens militantes que queriam abandonar a organização, del Barco assume uma posição não-violenta e diz, em síntese, que nenhuma causa, nenhum pretexto político justifica a violação de um preceito essencial de qualquer sociedade, que é o "Não matarás". E, ao fazê-lo, del Barco fez algo que até então praticamente ninguém ousava: chamar à responsabilidade não apenas os que cometeram crimes e barbaridades a mando do Estado argentino, mas também aqueles que cometeram crimes e barbaridades na oposição a esse mesmo Estado. Ou seja, ele rasga o cenário de mocinhos vs. bandidos em que as narrativas das ditaduras normalmente se apresentam, e com isso começou uma troca furiosa de artigos e cartas, parcialmente compilada na revista Políticas de la Memória nº 6/7, do verão de 2006/2007.

Ao comentar a posição corajosa de del Barco, minha professora, uma senhora falante que deve ter seus cinquenta e muitos anos, provavelmente incapaz de matar uma galinha para fazer o almoço, fez questão de enfatizar, como quem pede desculpas, que não estava dizendo que a violência revolucionária era condenável, ou um erro absoluto. Chamou-me menos a atenção do que ela disse do que a forma como disse. Ora, então, dizer que matar é errado seria algo incômodo, algum tipo de heresia que só pode ser enunciada com muitos rodeios e qualificações? Isso me incomodou. Pensei em fazer uma objeção, mas transformar os últimos minutos de uma aula de pós-graduação em um debate moral provavelmente não iria longe. Ainda assim, a questão continua comigo. Haverá muitos que ainda pensem assim? A não-violência vista como princípio, e não como mera tática utilitária, será ainda considerada tão absurda assim? Ou, por outro lado, a legitimidade do recurso às armas será algo tão tranquilamente aceito que soe estranho, quase blasfemo, pensar noutra possibilidade?

Minha professora é de uma geração em que a ideia de revolução ainda era abraçada por muita gente, especialmente na esquerda universitária. Isso explica a forma como tratou o assunto. Nenhum mistério aí. Mas que, décadas depois, o efeito disso na sua leitura moral ainda seja tão visível me dá o que pensar. Um simpatizante relutante da não-violência, espírita, mas que vê lógica e necessidade no princípio da legítima defesa, ainda tenho muito que refletir sobre o assunto. Mas gostaria muito que ele tivesse mais visibilidade por nossas plagas, especialmente numa época em que sabemos de coisas como esta. Afinal, como combater a violência que infecta o corpo social se não refletimos sobre ela? Assuntos dessa ordem, acredito, não podem ser deixados apenas para estatísticas policiais. Devem ser tratados também nas cátedras, nos estudos privados, nos púlpitos, nas escolas e, por que não, também em blogs modestos como este.

Segunda-feira, Novembro 23, 2009

Humor negro da melhor qualidade




Vale a pena começar por aqui: http://www.cracked.com/article/149_5-self-destructive-ways-people-accidentally-cured-themselves/

A parte do duelo entre a paciente obesa e o vírus devorador de carne já vale a visita.

Domingo, Novembro 22, 2009

Os anéis da Terra

Para divagar...


Pena que não levaram a Lua em consideração na viabilidade dos anéis. Mas, raios, que é lindo, é.

Sábado, Novembro 14, 2009

Divagações mais recentes


Há tempos que vinha planejando escrever de novo aqui, mas as ideias se sucedem numa velocidade maior que minha capacidade de execução. Aliás, não o fazem sempre? Porém, admito que uma certa indisciplina de minha parte não ajuda. Nos últimos anos, tenho sido mais um acumulador de leituras fragmentadas e inspirações esquecidas do que disciplinado monge medieval, mergulhado em constante estudo e meditação, que gostaria de incorporar. Cheguei a pensar que a entrada no doutorado me daria o impulso para isso, a descoberta do meu Roger Bacon interior, mas infelizmente percebi que não. A bem da verdade, dedico mais tempo aos textos e temas que eu mesmo prescrevi aos meus alunos de graduação que àqueles que viriam a compor minha futura tese. (Às vezes, gostar muito do próprio trabalho pode ser desvantajoso...)

Seja como for, o fato é que, lecionando e estudando permanentemente, não posso reclamar de tédio intelectual. Ter sempre vários assuntos com que entreter a própria curiosidade é um privilégio, ainda que signifique alguma possível sobrecarga cognitiva debilitante no futuro (ou não...). Divido com vocês alguns dos assuntos que me têm interessado recentemente.

O primeiro é uma inusitada e fascinante Oficina de Diários, com o Prof. Sérgio Barcellos (PUC-RJ). Soube dela por acaso, graças ao email de uma amiga, e decidi me inscrever na última hora. Até então, não sabia que existiam estudos acadêmicos a respeito da prática diarística, que tanto me encanta na literatura e na história. Lembrei-me imediatamente do meu primeiro contato com o famoso Diário Íntimo de Amiel, e da curiosidade imensa que esse tipo de registro desperta. E apesar das aulas, do doutorado e tantas outras coisas, decidi experimentar por puro prazer. Tem valido muito a pena. É ótimo conviver com pessoas de áreas diferentes, unidas por um interesse comum real e não uma obrigação acadêmica ou de trabalho, e a abordagem dada pelo professor, que é de Letras, é muito leve e agradável. No último encontro, por exemplo, ele levou uma professor de Ensino Fundamental que experimentou uma oficina de escrita pessoal -- o termo mais "técnico" para o diário -- com alunos de nono ano, de 14 a 15 anos. O resultado foi surpreendente, tocante até, uma versão mais suave da experiência retratada no filme Escritores da Liberdade.

Também retirei da prateleira meu quase septuagenário exemplar de Varieties of the Religious Experience, de William James. É um livro de bolso, capa dura, integrante da famosa Everyman's Library, e tenho um carinho especial por ele, por suas páginas tão bem conservadas para sua idade e a fácil portabilidade -- nem sei bem por que razão comprei uma edição mais nova em brochura. Nunca terminei a leitura, como já é praxe, mas James tem uma prosa tão envolvente, e o assunto por si mesmo -- um olhar científico sobre os padrões das experiências e sentimentos espirituais -- é tão apaixonante que jamais esqueço inteiramente essa obra. O caráter do místico, o desapego e a suprema confiança dos santos, as turbulências e angústias existenciais que precedem algumas conversões, tudo está lá, com mais outros tantos tópicos de interesse. Revisitá-lo foi muito prazeroso, e, dado o assunto, também uma forma de obter certo conforto e orientação. Nas citações frequentes que faz, James acaba apresentando o leitor a uma profusão de obras e testemunhos (de fontes cristãs, em geral), os quais, sozinhos, já valeriam o livro. Recomendo a todos, religiosos ou não.




Também andei incursionando pela trilha larga e florida do conhecimento ao estilo fast-food: comprei alguns volumes da divertida coleção Filósofos em 90 minutos, de Paul Strathern e publicada pela Zahar. Iniciado na filosofia por Will Durant, Bertrand Russell e a biblioteca do colégio, recorri a Strathern para tratar daqueles filósofos de que sempre ouvira falar mas sobre quem nunca li nada específico, ou, já que era uma promoção na livraria, como forma de pegar algum conceito mais célebre e me divertir no processo. Depois de encarar Wittgenstein -- de quem o autor enfatiza mais a loucura, quase a ponto de desqualificá-lo como pensador real -- e Foucault -- finalmente entendi o que é episteme! --, passei a Derrida. É espantoso como até um resumo bem-humorado sobre ele consegue ser difícil, o que torna o sucesso da French Theory nas plagas não-europeias ainda mais duro de compreender. Talvez seja verdade que, de uns tempos para cá, a obscuridade seja a chave do sucesso na Filosofia. Ainda me lembro bem dos textos de Deleuze e similares que passaram na faculdade de Comunicação, e de como o fruto desse esforço não foi exatamente significativo. Até hoje tenho certa antipatia instintiva à prosa enrolada de filósofos franceses, pois tenho para mim que textos labirínticos frequentemente são um disfarce para a falta de conteúdo. Talvez tenha sido esse o maior legado do curso de jornalismo, afinal.

Finalmente, assisti Alô, alô, Terezinha, o documentário de Nelson Hoineff sobre Chacrinha. Foi uma viagem de volta aos tempos de infância, e um bom motivo para gargalhadas. O ponto alto do filme são as entrevistas com os antigos calouros, um mais folclórico que o outro. Também muita atenção é dada às chacretes, e é interessante ver como os depoimentos delas se contradizem no que diz respeito às suas relações com as celebridades que cantavam ou produziam o programa. Mas senti falta de uma maior atenção ao Russo, o assistente de palco mais famoso da Globo e braço-direito de Chacrinha. Também acho que poderia ter aparecido mais da história do próprio personagem central. Seja como for, é entretenimento de primeira ordem.

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

Pedofilia legitimada no Oriente Médio


02/11/2009 - 11h03

Luta de menina iemenita de 10 anos para se divorciar vira livro

KATY SEEME
da
Efe, em Beirute

A jornalista e escritora franco-iraniana Delphine Minoui conta a história de Nojoud Ali, uma menina iemenita de 10 anos que foi a um tribunal e obteve o divórcio do marido, mais de 20 anos mais velho que ela, com a ajuda e determinação do juiz.

Em entrevista à agência Efe, a autora explica que "Nojoud, 10 anos, divorciada" é a prova de que, apesar da permanência destas práticas, que atentam contra os direitos mais elementares da infância e das mulheres, "há esperança" para as meninas que são obrigadas a se casar. "Apesar de seu caso ser trágico, assim como, infelizmente, da metade das meninas do Iêmen, a coragem da pequena" foi o que incentivou Minoui a escrever o livro, conta.

A menina "quebrou um tabu e foi se refugiar em um tribunal para pedir o divórcio, depois que a casaram com um homem 30 anos mais velho, que abusava sexualmente dela". "Teve a sorte de encontrar um juiz que aceitou ouvi-la, que se comoveu com sua história e prometeu ajudá-la, advertindo, no entanto, que a vitória não era certa", conta a escritora, cujo pai é iraniano e que vive no Líbano.

Cumprindo o prometido, "o juiz se mobilizou, contratou uma advogada especialista em direitos das mulheres, que divulgou o caso à imprensa e pressionou para que Nojoud recebesse o divórcio". "Segundo estatísticas que encontrei na Universidade de Sana [capital do Iêmen], mais da metade das meninas no Iêmen se casa antes dos 18 anos e é comum ver menores de 11, 12 ou 13 anos carregando os filhos nos braços", narra.

Segundo ela, "isso faz parte da normalidade, não só no Iêmen, mas também em países como Afeganistão, Egito e outros da região", onde muitas vezes se impõe a lei do silêncio e transforma o tema em tabu. No entanto, afirma que "o fabuloso por trás da tragédia de Nojoud é que há esperança, porque ela ousou fazer o que nunca ninguém tinha feito antes", como conta o livro, já traduzido para mais de 20 idiomas.

Para a jornalista, as dificuldades da vida das mulheres nesta região do mundo são devido a vários fatores, "entre eles, o religioso, já que, em muitos países, as leis são inspiradas na lei islâmica, ou sharia".

"Mas é um clichê atribuir a situação da mulher apenas à religião, já que existe também o fator tribal, onde prevalece a questão da honra, principalmente nas aldeias, onde e mal visto que uma menina cresça sem se casar", explica. "Temem que brinque com outras crianças, que seja sequestrada por um homem, que tenha relações --não necessariamente sexuais-- antes do casamento, por que estas coisas sujariam a honra da família, da tribo e do bairro", afirma a jornalista.

Outro fator para explicar os casamentos com meninas menores de idade é a pobreza. "Tomemos o caso de Nojoud. Seu pai está desempregado, casou-se duas vezes e tem 16 filhos. Para ele, casá-la é livrar-se de uma carga, é uma boca a menos para alimentar", diz.

A educação também tem papel crucial e Minoui ressalta que o fenômeno acontece no Afeganistão ou no Egito, mas não no Irã --por exemplo--, onde a mulher tem acesso à educação. "Mais de 90% das mulheres são escolarizadas e, com isso, já conseguiram a primeira etapa para sua liberdade e emancipação", opina.

Assim, "inclusive jovens de meios tradicionais, que vão ao colégio e à universidade, aprendem a refletir e a reivindicar seus direitos". "Sem educação e sem consciência de seus direitos, quando um pai diz à filha que esta se casará amanhã, ela não sabe que tem direito de dizer não. A mulher é submetida e vê que a mãe e as irmãs maiores tiveram o mesmo destino", conta.

Mas há pessoas que lutam ativamente contra esta prática, mas, às vezes, a um preço muito alto. "As mulheres que trabalham nas ONG são ameaçadas de morte, são emitidas fatwas [éditos religiosos] contra elas, acusam-nas de serem manipuladas pelo Ocidente e muitas acabam por abandonar", conta.

Além disso, a jornalista fala que, muitas vezes, "as autoridades não fazem fada para que as meninas tenham acesso à educação ou aos serviços de saúde. A maioria delas dá à luz em casa e o planejamento familiar é nulo". No entanto, "o caso de Nojoud, que apareceu na imprensa local e nas televisões, contribuiu para que as coisas comecem a mudar, mas de modo muito lento".

Depois de Nojoud, outras menores de entre 10 e 11 anos no Iêmen obtiveram o divórcio. "Isso é encorajador. Na Arábia Saudita, uma menina era casada com um homem 50 anos mais velho, mas a mãe soube do caso de Nojoud e pediu o divórcio para a filha, e conseguiu", afirma Minoui.

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

Uma continuação para "Drácula"

Continuações de clássicos escritas por terceiros são um risco. Fora a aparência de profanação, eles tiram proveito justamente daquilo que pode tornar uma obra dessas fascinante, as pontas soltas, o que resta inacabado à espera da imaginação do leitor.

Será que funciona?

Em 2010 eu pretendo conferir.

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28/10/2009 - 08h32

Herdeiro de Bram Stoker ressuscita o maior vampiro da literatura

da Folha Online

Presente em diversas culturas, o mito da criatura que foge do sol e se alimenta de sangue mantém-se presente até os dias atuais. Não há um consenso quanto à lenda que originou a ideia do vampiro tal qual a conhecemos, mas o texto de Bram Stoker ajudou a popularizar suas histórias.

Divulgação
Bram Stoker terá a obra "Drácula" continuada por seu herdeiro
Herdeiro do escritor Bram Stoker fará continuação de "Drácula"

Apesar de não ter sido a primeira aparição literária destes seres,"Drácula" --escrito originalmente em 1897-- foi a de maior relevância e atravessou os séculos. Em forma de diários, Stoker relata a história de um homem que parte em uma viagem de negócios para a Transilvânia. Hospedado no castelo de seu cliente, Jonathan Harker estranha o medo intenso dos moradores e a rotina do local.

Assustado, volta para a Inglaterra e para sua noiva Mina Murray. Em casa, algo estranho ocorre com a melhor amiga de Mina e os pretendentes da jovem chamam o doutor Van Helsin para averiguar. O velho percebe que o cliente estrageiro de Harker está envolvido nos estranhos incidentes e que ele pode ser um vampiro.

Envolto em uma aura de mistério e sedução, a obra levou os leitores a questionarem se este homem realmente existiu. Historiadores deduzem que Stoker baseou-se no príncipe Vlad Tepes, que viveu em 1491 e era o governante da atual região da Romênia. Sua fama era de extrema crueldade contra seus inimigos. Empalava aqueles que derrotava.

Mito ou realidade, o tirano --e a obra irlandesa-- tornou-se fonte de inspiração para outras produções (no cinema, na literatura, na televisão e nos quadrinhos) que apresentam o nobre sugador de sangue como vilão ou herói.

Adaptado inúmeras vezes para o cinema, "Drácula" acabou conhecido como a origem dos seres das trevas ou ao menos o mais importante deles.

Editado e reeditado repetidas vezes, o clássico do terror ganha agora uma continuação. Dacre Stoker, sobrinho-bisneto do autor, e o especialista em vampiros Ian Holt acabam de publicar"Dracula: The Un-Dead" , pela editora Dutton Adult, na Grã-Bretanha, Estados Unidos, França e Canadá. No Brasil, a Ediouro planeja lançá-lo em fevereiro de 2010. Seus direitos já foram vendidos para o cinema.

Na nova trama, o conde retorna sedento por vingança e se une à condessa Bathory --outra das possíveis fontes de inspiração para o original-- para eliminar os sobreviventes do primeiro livro e enfrentar o agora crescido filho de Mina e Jonathan. Elogiado por manter o clima sombrio e imprimir uma narrativa moderna, "Drácula" mostra-se mais vivo do que nunca. E o melhor, com sangue novo em suas páginas.

Sábado, Outubro 24, 2009

Distrito 9...




...também poderia se chamar "E se Eichmann se descobrisse judeu?"


Ao contrário do que muita gente pensa, não é um filme sobre o apartheid. É muito melhor do que isso!

Sexta-feira, Outubro 16, 2009

O fim de uma farsa?


Tirado daqui.



Shroud of Turin replicated by Italian scientist using ancient techniques may prove the relic a fake

Tuesday, October 6th 2009, 9:15 AM

ROME - An Italian scientist says he has reproduced the Shroud of Turin, a feat that he says proves definitively that the linen some Christians revere as Jesus Christ's burial cloth is a medieval fake.

The shroud, measuring 14 feet, 4 inches by 3 feet, 7 inches bears the image, eerily reversed like a photographic negative, of a crucified man some believers say is Christ.

"We have shown that is possible to reproduce something which has the same characteristics as the Shroud," Luigi Garlaschelli, who is due to illustrate the results at a conference on the paranormal this weekend in northern Italy, said on Monday.

A professor of organic chemistry at the University of Pavia, Garlaschelli made available to Reuters the paper he will deliver and the accompanying comparative photographs.

The Shroud of Turin shows the back and front of a bearded man with long hair, his arms crossed on his chest, while the entire cloth is marked by what appears to be rivulets of blood from wounds in the wrists, feet and side.

Carbon dating tests by laboratories in Oxford, England; Zurich, Switzerland, and Tucson, Ariz., in 1988 caused a sensation by dating it from between 1260 and 1390. Skeptics said it was a hoax, possibly made to attract the profitable medieval pilgrimage business.

But scientists have thus far been at a loss to explain how the image was left on the cloth.

Garlaschelli reproduced the full-sized shroud using materials and techniques that were available in the Middle Ages.

They placed a linen sheet flat over a volunteer and then rubbed it with a pigment containing traces of acid. A mask was used for the face.

The pigment was then artificially aged by heating the cloth in an oven and washing it, a process which removed it from the surface but left a fuzzy, half-tone image similar to that on the Shroud. He believes the pigment on the original Shroud faded naturally over the centuries.

They then added blood stains, burn holes, scorches and water stains to achieve the final effect.

The Catholic Church does not claim the Shroud is authentic nor that it is a matter of faith, but says it should be a powerful reminder of Christ's passion.

One of Christianity's most disputed relics, it is locked away at Turin Cathedral in Italy and rarely exhibited. It was last on display in 2000 and is due to be shown again next year.

Garlaschelli expects people to contest his findings.

"If they don't want to believe carbon dating done by some of the world's best laboratories they certainly won't believe me," he said.

The accuracy of the 1988 tests was challenged by some hard-core believers who said restorations of the Shroud in past centuries had contaminated the results.

The history of the Shroud is long and controversial.

After surfacing in the Middle East and France, it was brought by Italy's former royal family, the Savoys, to their seat in Turin in 1578. In 1983 ex-King Umberto II bequeathed it to the late Pope John Paul.

The Shroud narrowly escaped destruction in 1997 when a fire ravaged the Guarini Chapel of the Turin cathedral where it is held. The cloth was saved by a fireman who risked his life.

Garlaschelli received funding for his work by an Italian association of atheists and agnostics but said it had no effect on his results.

"Money has no odor," he said. "This was done scientifically. If the Church wants to fund me in the future, here I am."

Segunda-feira, Outubro 05, 2009

Os tempos estão mudando

Durante muito tempo, acostumado como todo o mundo à televisão e ao cinema, eu não percebia certas coisas. Foi só já praticamente adulto, depois de ter visto em pessoa a atriz Betty Faria em um evento na UERJ, e mais tarde uma repórter da Globo, que passei a reparar na pesada maquiagem do pessoal que trabalha nos meios audiovisuais. Deve ter sido por essa época, também, que comecei a reparar na diferença entre o corpo que eu via na tela e as reais proporções físicas daquelas pessoas. Dizem que a TV dá a aparência de 4 a 5 quilos a mais, e é verdade. Isso significa que, se uma pessoa parece magra na tela, é porque ela é mais magra ainda.

Sendo assim, que dizer disso ou disso? Isso é um modelo viável para se tornar um padrão? (Supondo, aliás, que exista um modelo capaz de ser um padrão justo.) Então, foi com alegria que, em meus passeios virtuais, topei com isto:




A imagem acima é da revista americana Glamour, que aparentemente reconheceu o óbvio: que a grande maioria das mulheres reais que compram sua revista não são exatamente as ninfas (muito) magras que usualmente aparecem na revista. Trata-se de uma saudável tendência que vem se manifestando há poucos anos, pelo menos desde que se começou a exigir padrões físicos mais saudáveis em alguns eventos de moda. A discussão sobre o cruel modelo de "beleza" propagado nesse meio, e aceito acriticamente por milhões de mulheres (muitas ainda muito jovens e despreparadas para resistir adequadamente) em todo o mundo ganhou repercussão, e se manifestou até na publicidade de alguns produtos cosméticos. No caso da Glamour, mais do que um capa isolada, trata-se de um compromisso editorial: a revista diz em seu site que doravante diversificará o padrão físico das modelos que retrata de forma permanente. E pensar que tudo começou com essa foto singela...

Longa vida ao realismo estético!

Sábado, Agosto 08, 2009

Coelhinhas

Visitando o Arts and Letters Daily, deparei-me com uma resenha curiosa sobre a autobiografia de uma ex-"namorada" do legendário Hugh Hefner, o fundador da Playboy. Essas moças são fáceis de ver na TV americana, existe até um programa de que participam. A mim, elas parecem clones: lábios cheios, cabelos louros oxigenados, seios grandes, pernas finas -- espécie de versão cachorra da Barbie. Nunca me passou pela cabeça que uma delas poderia escrever um livro de memórias, mas, como a realidade sempre surpreende, eis que me deparo com o próprio. Admito que fiquei curioso. Afinal, além da prostituição pura e simples que me vem imediatamente à cabeça quando vejo um octogenário de roupão desfilando com sete mulheres jovens, como é a vida em um harém à moda ocidental? O que é mito e o que é verdade?

Naturalmente, não se trata de uma história das mais bonitas. A autora, que era estudante de Direito quando foi convidada a entrar para o grupo, se diz o seu "cérebro simbólico", uma "nerd" por trás da aparência de objeto sexual voluntário. O tom com que fala de Hefner parece ser muito crítico, o que também não chega a surpreender. Trata-se do relato de uma pessoa que alugou a si mesma em troca de uma mesada semana de US$ 1.000, carros exuberantes, roupas à vontade, plásticas gratuitas etc., sexo muito raro (octogenário + sete namoradas = alguma surpresa?) e, agora, projeção editorial. O que eu me pergunto, no entanto, e é o que me faria ler o livro, como essa situação é abordada no dia-a-dia. Por exemplo, como o harém vê a si mesmo? Há algum questionamento moral? Na visão dessas mulheres, há alguma diferença entre o que fazem e o trabalho das scort girls tradicionais? Há algum estigma social ou até isso é glamourizado?

São curiosidades frívolas, admito. Há não muito tempo, comprei em um sebo um livro chamado Model, de Michael Gross, sobre os bastidores das grandes agências de modelos. O livro promete uma história cheia de detalhes sórdidos, mas não li até agora mais que três parágrafos. Considerando minhas atividades e meu apetite bibliográfico por temas mais nobres, é bem possível que jamais o leia. Mas quem sabe?




Segunda-feira, Julho 27, 2009

Comédia submarina

Ao descobrir isto por acaso no YouTube, lembrei imediatamente das esquetes satíricas do Cartoon Network. Então, em homenagem ao membro mais subestimado da Liga da Justiça compartilho com vocês:

Sábado, Julho 25, 2009

Um site relevante

Colunistas renomados escrevendo sobre assuntos relevantes. É tudo o que se precisa saber para visitar o site do Project Syndicate.

Quarta-feira, Julho 22, 2009

Clássicos pop

Depois do sucesso da novíssima interpretação do clássico de Jane Austen, mais um best-seller para todas as épocas se anuncia. Viva a grandiosa literatura inglesa!




Vagando pelos blogs alheios

Estou de férias. Bem, férias de doutorando, o que significa que tenho pelo menos um trabalho para fazer, sem mencionar minha própria pesquisa, devidamente parada no primeiro semestre de curso. Mas ainda não entrei em um ritmo produtivo, tendo me limitado a ver filmes, navegar até tarde e coisas do gênero (as férias começaram na sexta, apenas). De lá para cá, tenho descoberto algumas coisas interessantes, boa parte em blogs.

Acima de tudo, The Teaching Company. Trata-se de uma empresa que vende cursos em CD, não raro com material visual complementar em DVD, sobre uam infinidade de temas fascinantes. Só para se ter uma ideia, na parte de História, tem-se: a história geral chinesa, a tradição conservadora nos EUA, gregos e romanos famosos, a história do pensamento ocidental, o Jesus histórico, mitologia do Oriente Próximo, as grandes religiões, questões econômicas contemporâneas, entre muitos outros temas. Também há cursos em várias outras áreas, de Matemática a Ciências Sociais e Artes. O problema é o preço: só o de tradição conservadora, por exemplo, custava quase 400 dólares na última vez que eu vi (hoje entrou em liquidação, com a versão apenas em CD caindo para 70 dólares) -- um dos prováveis motivos de tantos cursos terem caído na rede de compartilhamento de arquivos. Em todo caso, se você tem uma boa compreensão do inglês, vale a pena conhecer essa referência.

Falando em inglês, este texto me fez reconsiderar a maneira como dou aulas na graduação. Nunca fiz um podcast, o equivalente internético do que um dia se chamou "gravação de voz", mas penso que pode ser um bom recurso complementar às aulas convencionais, desde, claro, que todos os alunos tenham acesso à rede e condições de escutar o arquivo. Vai dar um trabalho bem grande, se resolver adotá-lo, mas pode ser uma experiência gradual. Quando penso na quantidade de vezes em que meus diletos estudantes, candidatos à elite intelectual da nação, me olharam com a expressão vazia dos catatônicos quando lhes perguntava se haviam feito as leituras indicadas para a aula, sinto o entusiasmo de um radialista que acaba de ganhar seu próprio programa. Mas é algo para pensar com cuidado.

Saindo da área educacional para a de atualidades, encontrei no blog do Hermenauta este artigo da revista alemã Der Spiegel sobre a mania da depilação que tem se espalhado pela Alemanha. Ao que parece, um número crescente de cidadãos teutônicos tem se convencido de que pelos pubianos são uma manifestação de falta de higiene ou uma deficiência estética (uma "moda" que eu já supunha existir ao visitar este site). Bem, ao que parece, atores pornôs e as modelos das maiores revistas masculinas já tinham chegado a essa conclusão há muito tempo, mas, no caso deles, até há uma lógica em querer o máximo de exposição da epiderme. Afinal, sexo explícito não leva esse adjetivo à toa. Mas curiosamente homens, mulheres e adolescentes estão levando isso a sério demais na Alemanha, por motivações que não passam exatamente pela racionalidade -- ao mesmo tempo que seus medos recém-adquiridos nutrem uma indústria estética pujante. A tendência, parece-me, é que isso leve a um círculo vicioso: pessoas inseguras começam a se depilar, geram uma indústria, que depois retroalimenta essa insegurança pela publicidade. Um processo que lembra o de um famoso grupo de macacos, com a diferença, contudo, de ser muito mais perverso, já que cada vez mais os padrões estéticos se tornam mais restritos: primeiro temos de ser magros (no caso feminino, muito magros), depois malhados, e agora completamente pelados, para não citar as inumeráveis variações que fazem a alegria dos cirurgiões plásticos .

Em O Biscoito Fino e a Massa, de Idelber Avelar, encontro um post muito bom sobre os truísmos comuns na linguagem cotidiana. Eu nem sempre concordo com o Idelber no que diz respeito à política, e ultimamente acho que ele tem projetado no Brasil uma questão cultural que é muito mais grave nos EUA, onde, se não me engano, ele reside e leciona. No entanto, Idelber é uma pessoa muito inteligente, e muitas vezes saio de seu blog enriquecido de análises argutas sobre todo tipo de assunto. Também digna de atenção é sua caixa de comentários, que costuma atrair visitantes às centenas, um fórum de debates nada desprezível. Para quem ainda não conhece, fica a sugestão.

Acrescentado um pouco mais de dissenso, um post do Rafael Galvão sobre o funeral de Michael Jackson, e um reflexão justa de Daniel Piza sobre o que é ter "cultura" hoje. Eu ainda vou blogar assim. :-)

Domingo, Julho 19, 2009

Inteligência artificial

Eu tendo a desconfiar da futurologia. Primeiro, porque, de Nostradamus a Stanley Kubrick, elas quase sempre estão erradas; depois, porque elas inevitavelmente são constituídas de projeções das tendências de agora em um prazo mais longo, o que pressupõe uma continuidade impossível de garantir; e, finalmente, porque elas levam tempo demais para serem provadas. No entanto, de algum tempo para cá, uma corrente de futurologia vem ganhando força em torno de um mesmo tema: a modificação da natureza humana. Não vou discutir aqui as sutilezas desse conceito, referindo-me apenas ao seu sentido mais elementar: o conjunto de características e capacidades potenciais de um ser humano típico. Décadas depois de Aldous Huxley tratar do assunto em seu distópico Admirável Mundo Novo, Francis Fukuyama, os trans-humanistas e os bons e velhos escritores de ficção-científica têm trazido o assunto à baila com crescente insistência, não mais como uma fantasia apenas, e sim como uma possibilidade bastante concreta. Na era da biotecnologia e do (relativo) fácil acesso à informação, trata-se de uma preocupação muito sensata.

Teremos maturidade coletiva para lidar com mudanças permanentes no funcionamento de nosso organismo. Já fazemos isso com próteses, transplantes, cirurgias etc., e até com psicoterapia, mas estaríamos preparados para fazer o mesmo com o desempenho cognitivo? Supondo que estejamos perto de criar "pílulas/chips/seja-lá-o-que-for da inteligência", teremos noção das consequências éticas, políticas e sociais de seu uso? É fácil ver o quão conveniente seria um tal recurso para um vestibulando, por exemplo, ou um engenheiro envolvido em um projeto, mas é quase certo que dificilmente alguém iria querer parar aí.

É verdade que, de certa maneira, já temos diferenças gritantes entre povos e nações a partir do momento, por exemplo, que alguns têm acesso a três refeições por dia e outros, não. Mas, injustiças-colossais-mas-tão-presentes-que-se-tornam-quase-invisíveis à parte, vale a pena pensar um pouco sobre o que pode ser a próxima "onda". Eis aqui um artigo de um entusiasta do assunto: http://www.theatlantic.com/doc/print/200907/intelligence.